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CDI, Selic e IPCA: o que são os indexadores

O que significam CDI, Selic e IPCA, quem define cada um e por que quase toda aplicação de renda fixa no Brasil é cotada em cima de um deles.

7 min de leitura

A resposta curta

Os três são referências de preço, não produtos. Uma aplicação não "rende CDI": ela promete uma regra escrita em cima de um desses números.

Indexador O que é Quem define ou calcula
Selic A taxa básica de juros da economia A meta é definida pelo Copom, no Banco Central
CDI A taxa média dos empréstimos de um dia entre bancos Calculada e divulgada pela B3
IPCA O índice oficial de inflação do país Calculado e divulgado pelo IBGE

Selic e CDI andam praticamente juntos, e por um motivo mecânico que este texto explica. O IPCA é outra coisa: mede preço, não juro, e por isso "IPCA + 5%" é uma promessa de natureza diferente de "110% do CDI".

Por que quase tudo aqui é cotado em índice

Em muitos países, uma aplicação de renda fixa é vendida com uma taxa fixa e ponto final. Aqui o padrão é outro: a maior parte dos papéis é pós-fixada, ou seja, promete uma fração ou um adicional sobre um índice que ainda vai acontecer.

A razão é prática. Um país que conviveu com inflação alta e com juros que mudam rápido não consegue vender papel longo de taxa fixa sem que alguém (emissor ou investidor) assuma um risco grande demais. Indexar resolve isso: em vez de apostar em qual será o juro dos próximos anos, as duas partes combinam seguir o juro, qualquer que ele seja.

O efeito para quem investe é que você não sabe o valor final no primeiro dia. Sabe a regra. E entender a regra depende de entender o índice que está dentro dela.

Selic: a taxa básica

Selic é, ao mesmo tempo, o nome de um sistema e o nome de uma taxa. O sistema é o Sistema Especial de Liquidação e de Custódia, onde os títulos públicos federais são registrados e negociados. A taxa nasce das operações que passam por ali.

O que aparece no noticiário é a meta da taxa Selic, e ela é uma decisão, não uma medição. Quem decide é o Copom, o Comitê de Política Monetária, formado pelo presidente e pelos diretores do Banco Central. Pelo regulamento do comitê (Circular BCB nº 3.868/2017), ele se reúne oito vezes por ano em reuniões ordinárias, cada uma em dois dias seguidos: no primeiro há apresentações técnicas, no segundo se decide a meta. O comunicado sai logo depois do encerramento, a partir das 18h30, e a ata detalhada quatro dias úteis depois.

O que o Copom persegue é a meta de inflação, definida pelo Conselho Monetário Nacional. Desde 2025 essa meta é contínua: 3,00% ao ano medidos pelo IPCA, com tolerância de 1,5 ponto percentual para cima e para baixo, apurada mês a mês em vez de por ano-calendário (Decreto nº 12.079/2024 e Resolução CMN nº 5.141/2024). Se a inflação acumulada em doze meses fica fora do intervalo por seis meses seguidos, a meta é considerada descumprida e o Banco Central precisa explicar o porquê em carta aberta ao Ministro da Fazenda.

A lógica é direta. Juro alto encarece crédito, freia consumo e tende a segurar preços. Juro baixo faz o contrário. A Selic é a alavanca; a inflação é o alvo.

Para dar uma referência: em 6 de agosto de 2026 a meta passou a 14,00% ao ano (série 432 do Banco Central). Esse número muda a cada reunião; a mecânica, não.

Selic meta e Selic over não são o mesmo número

Aqui está a confusão mais comum do assunto, e ela tem consequência prática.

A Selic meta é o alvo que o Copom anuncia. A Selic over, também chamada de Selic efetiva, é o que de fato acontece: a taxa média ajustada das operações de compra e venda de títulos públicos federais com compromisso de recompra no dia útil seguinte, calculada diariamente pelo Banco Central (Circular BCB nº 3.671/2013).

O Banco Central atua no mercado para manter a over colada na meta, e ela costuma ficar um pouco abaixo, por fração de ponto percentual. Em 7 de agosto de 2026, com a meta em 14,00%, a over anualizada estava em 13,90%.

Por que importa: quando uma aplicação diz que rende "Selic" ou "100% da Selic", quem manda é a over, não a meta anunciada.

CDI: o empréstimo de um dia entre bancos

Todo dia útil, alguns bancos terminam o expediente com dinheiro sobrando e outros com dinheiro faltando. Como precisam fechar o dia equilibrados, emprestam entre si de um dia para o outro. Esse empréstimo é registrado como Depósito Interfinanceiro, o DI, e a taxa média dessas operações é o que o mercado chama de CDI.

Quem calcula e divulga é a B3. A metodologia considera só os DIs prefixados de um dia útil e só as operações entre instituições de conglomerados diferentes: negócio entre empresas do mesmo grupo não entra, porque não teria preço de mercado.

E aqui está o motivo pelo qual CDI e Selic andam praticamente juntos. Primeiro, porque são substitutos: um banco com sobra de caixa escolhe entre emprestar a outro banco por um dia ou fazer o mesmo lastreado em título público. Se uma das duas pagasse mais, o dinheiro migraria para lá até as taxas se igualarem.

Segundo, porque a própria regra da B3 fecha a porta. Desde 1º de outubro de 2018, se no dia houver menos de 100 operações elegíveis ou se o volume somado ficar abaixo de R$ 30 bilhões, a Taxa DI daquele dia passa a ser, por definição, igual à Selic over divulgada no mesmo dia. Como o mercado interbancário encolheu muito, esse é hoje o caso frequente: na prática, o CDI muitas vezes é a Selic over. Em 6 de agosto de 2026, as duas estavam em 13,90% ao ano.

Resumindo em uma frase: o CDI não é uma decisão de ninguém. É um preço de mercado que segue de perto uma decisão: a do Copom.

Ler "110% do CDI" e "CDI + 1%"

São duas formas diferentes de escrever uma promessa, e elas se comportam de maneira oposta quando o juro muda.

Percentual do CDI multiplica. Você recebe uma fatia do que o índice andar.

CDI mais spread soma. Você recebe o índice inteiro mais um adicional fixo.

Exemplo hipotético, com dois papéis: um de 110% do CDI e outro de CDI + 1% ao ano.

Se o CDI no ano for 110% do CDI entrega CDI + 1% entrega
14% 15,4% 15,0%
10% 11,0% 11,0%
6% 6,6% 7,0%

Com juro alto, o percentual ganha, porque multiplica um número grande. Com juro baixo, o spread ganha, porque o adicional não encolhe junto. O ponto de empate depende dos números de cada oferta: é uma conta de trinta segundos, não uma regra para decorar.

Duas ressalvas. Na convenção de mercado, "CDI + 1%" é composto de forma multiplicativa, não somado direto; o resultado fica muito perto da soma e não muda a conclusão. E nenhuma dessas contas vale antes de descontar o imposto, tratado em imposto de renda nos investimentos.

IPCA: o índice oficial de inflação

O IPCA, Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo, é calculado e divulgado pelo IBGE, mensalmente. Ele mede a variação de preços do consumo das famílias que moram em áreas urbanas e têm renda de 1 a 40 salários mínimos, qualquer que seja a fonte.

A coleta cobre dez regiões metropolitanas, o Distrito Federal e mais cinco municípios, e vai, em geral, do dia 1 ao dia 30 do mês de referência. O resultado sai por volta do dia 10 do mês seguinte. É esse índice, e não outro, que o regime de metas usa como termômetro.

O que muda quando uma aplicação é indexada a ele: "IPCA + 5% ao ano" não promete quanto dinheiro você terá. Promete manter o poder de compra e somar 5% por cima. Se a inflação for de 4%, o retorno nominal fica perto de 9%; se for de 9%, fica perto de 14%. Nos dois casos, o ganho acima da inflação é o mesmo.

É uma promessa mais forte que a dos outros dois indexadores, e mais rara em prazos curtos, porque quem emite precisa carregar o risco de a inflação disparar.

Nominal e real: a conta que muda a leitura

Rentabilidade nominal é o número do extrato. Rentabilidade real é o que sobra depois da inflação, e é ela que responde à pergunta que interessa: quanto a mais eu consigo comprar?

A conta é de divisão, não de subtração. Exemplo hipotético: uma aplicação rendeu 12% no ano e a inflação do período foi 5%.

(1 + 0,12) ÷ (1 + 0,05) − 1 = 6,67%

Não 7%. E falta o imposto, que incide sobre o rendimento nominal inteiro, inclusive sobre a parte que apenas repôs a inflação. Em períodos de inflação alta, dá para ter retorno nominal positivo, imposto a pagar e retorno real negativo ao mesmo tempo.

Qual indexador combina com qual objetivo

Não existe indexador melhor. Existe indexador adequado a um horizonte.

Pós-fixado ao CDI ou à Selic serve para dinheiro de curto prazo e para o que precisa estar disponível. Como o rendimento acompanha o juro do dia, o valor sobe todo dia útil e não cai, que é a propriedade que uma reserva de emergência exige. A contrapartida: se o juro cair, o retorno cai junto.

Prefixado serve para quem quer travar uma taxa e consegue levar até o vencimento. Você ganha se o juro cair depois da compra e perde relativamente se ele subir. Antes do vencimento, o papel tem preço de mercado e oscila.

Indexado ao IPCA serve para objetivo longo cujo custo acompanha a inflação. É a única das três famílias que contrata um ganho real, e também oscila bastante no meio do caminho.

Como esses formatos aparecem em cada produto está em renda fixa: CDB, LCI, LCA e LC e em Tesouro Direto. E a razão pela qual nenhum deles entrega tudo ao mesmo tempo está em risco, liquidez e rentabilidade.

Conteúdo educacional. Este texto explica como funcionam produtos e conceitos do mercado financeiro e não constitui recomendação de investimento, consultoria, análise de valores mobiliários nem oferta de qualquer produto. Decisões de investimento são suas e dependem dos seus objetivos e da sua situação. Regras tributárias e regulatórias mudam; confirme na fonte oficial antes de decidir.