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Ações: o que você compra e como ganha dinheiro

O que uma ação representa de fato, a diferença entre ON, PN e unit, como ler um ticker e de onde vem o retorno de quem investe em bolsa.

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O que é uma ação

Uma ação é a menor fração do capital social de uma sociedade anônima. Quem compra uma ação vira sócio da companhia, em proporção minúscula, mas sócio de fato, com os direitos que a Lei nº 6.404/1976, a Lei das S.A., assegura a qualquer acionista: participar dos lucros, fiscalizar a gestão, ter preferência para subscrever novas ações e receber a parte que lhe cabe do patrimônio se a empresa for liquidada.

Isso muda a pergunta que importa. Comprar ação não é apostar que um gráfico vai subir; é passar a ter direito a uma fatia dos resultados futuros de um negócio real. O preço na tela é a opinião do mercado sobre esse negócio hoje. O que você comprou é o negócio.

Ação também não é empréstimo. Em renda fixa você é credor: há data, taxa e obrigação de devolver. Em ação você é sócio: nada disso existe, e você recebe o que sobra depois que todo mundo (fornecedores, funcionários, bancos, governo) foi pago. Essa posição no fim da fila é a razão de o retorno esperado ser maior e de o risco ser maior junto.

ON, PN e unit

As ações se dividem, pela Lei das S.A., em ordinárias, preferenciais e de fruição (art. 15). As duas primeiras são as que você encontra na bolsa.

Ação ordinária (ON). Dá direito a voto nas assembleias de acionistas. É o papel do controle: quem tem a maioria das ON manda na companhia. Ao pequeno acionista o voto individual vale pouco, mas vem acompanhado de algo que vale bastante: o tag along do art. 254-A. Se o controle da companhia aberta for vendido, o comprador é obrigado a fazer oferta pública pelas ON dos demais acionistas por, no mínimo, 80% do valor pago por ação do bloco de controle.

Ação preferencial (PN). Em regra não dá voto, e em troca oferece vantagem patrimonial: prioridade na distribuição de dividendo, prioridade no reembolso do capital, ou as duas (art. 17). Para serem admitidas à negociação em bolsa, as PN sem voto precisam ter pelo menos uma de três vantagens (art. 17, § 1º): participar de dividendo de no mínimo 25% do lucro líquido do exercício, com prioridade equivalente a 3% do patrimônio líquido da ação; receber dividendo pelo menos 10% maior que o das ordinárias; ou serem incluídas na oferta de alienação de controle, com dividendo ao menos igual ao das ON.

Duas regras completam o desenho e costumam passar despercebidas. As PN sem voto, ou com voto restrito, não podem passar de 50% do total de ações emitidas (art. 15, § 2º). E, se a companhia deixar de pagar os dividendos fixos ou mínimos a que as PN fazem jus pelo prazo previsto no estatuto, nunca superior a três exercícios consecutivos, as preferenciais adquirem direito de voto e o conservam até o pagamento (art. 111, § 1º).

Unit. É um pacote negociado como um único ativo, composto por mais de uma espécie de papel da mesma companhia, tipicamente uma ON somada a duas PN, na proporção que a emissora definiu. Quem compra a unit compra o conjunto e recebe os proventos de cada componente. A composição não é padronizada: está descrita no documento da emissão.

Não existe "a melhor espécie". ON e PN da mesma companhia têm preços diferentes porque carregam direitos diferentes. A pergunta certa é o que você está comprando: voto e tag along, ou prioridade no dividendo.

Como ler um ticker da B3

Todo ativo negociado na B3 tem um código de negociação, o ticker: quatro letras que identificam a empresa, seguidas de um número que identifica a espécie do papel. As letras são escolhidas pela própria companhia, com orientação da bolsa, e costumam remeter à marca, não à razão social. O número é que carrega a informação técnica.

Final do código O que é
3 Ação ordinária (ON)
4 Ação preferencial (PN)
5 Preferencial classe A
6 Preferencial classe B
7 e 8 Preferenciais classes C e D
11 Unit, cota de fundo listado, ETF ou BDR nível I
1 e 2 Direito de subscrição de ON e de PN
9 e 10 Recibo de subscrição de ON e de PN
31 a 39 BDR: recibo de ação estrangeira

Um exemplo apenas para ilustrar a regra de nomenclatura, sem qualquer sugestão de investimento: um código como PETR4 é a preferencial da companhia cujas quatro letras são PETR; o mesmo emissor com final 3 seria a ordinária.

Dois cuidados. O final 11 é ambíguo por natureza: pode ser unit, cota de fundo imobiliário ou ETF, e só o nome do ativo desfaz a dúvida. E finais 1, 2, 9 e 10 são direitos e recibos temporários que aparecem depois de uma subscrição, com prazo para exercer ou vender, não a ação em si.

De onde vem o retorno

Só existem duas fontes, e elas se somam.

Valorização. Você vende por mais do que pagou. Essa parte só vira dinheiro quando você vende: até lá é preço de tela, e preço de tela sobe e desce.

Proventos. A empresa distribui parte do lucro aos sócios, em dinheiro, sem que você precise vender nada. Dividendo e juros sobre capital próprio são as duas formas em espécie; bonificação e subscrição são eventos de outra natureza. Cada um tem regra e tributação próprias, detalhadas em dividendos, JCP e proventos.

Comparar empresas só pela variação do preço deixa metade da conta de fora. Companhia madura que distribui muito tende a valorizar menos, porque o lucro sai em vez de ser reinvestido; uma em crescimento tende ao contrário.

O que faz o preço se mover

O preço de uma ação é o ponto em que alguém aceita vender e outro aceita comprar, e se move quando essa expectativa coletiva muda, e a palavra é expectativa, não passado.

É por isso que uma empresa pode divulgar lucro recorde e a ação cair no mesmo dia: o lucro recorde já estava no preço, e o que mudou foi a projeção para os trimestres seguintes. O balanço descreve o que aconteceu; o preço, o que se espera que aconteça.

Quatro forças aparecem quase sempre:

  • Resultado da empresa. Receita, margem, dívida, geração de caixa. É o que sustenta o preço no longo prazo.
  • Expectativa. Projeções, guidance da companhia, mudança de percepção sobre o setor.
  • Juros da economia. Quando a taxa básica sobe, a renda fixa passa a pagar mais sem risco de sócio e o dinheiro migra; além disso, lucros futuros valem menos quando trazidos a valor presente por uma taxa maior. O mecanismo está em CDI, Selic e IPCA.
  • Notícia e fluxo. Regulação, câmbio, eleição, crise lá fora. Boa parte do movimento de curto prazo não tem nada a ver com a empresa.

Nenhuma dessas forças é previsível com regularidade.

Lote padrão e mercado fracionário

No mercado à vista de ações, o lote padrão da B3 é de 100 ações, e as ordens no livro principal são múltiplas de 100.

Para quem compra pouco de cada vez existe o mercado fracionário, onde se negocia de 1 a 99 ações. O ativo é exatamente o mesmo; muda o livro de ofertas e o código, que ganha a letra F no final: XXXX3 no lote padrão e XXXX3F no fracionário. Juntando 100 ações compradas aos poucos, você pode vendê-las como lote padrão.

A contrapartida é a liquidez. Em papéis muito negociados a diferença entre os dois livros é desprezível; em papéis de pouco volume, o fracionário tem menos ofertas e a distância entre a melhor compra e a melhor venda fica maior.

Cotas de fundos imobiliários seguem regra diferente: lote padrão de uma cota, com cotação em reais por cota. O assunto está em fundos imobiliários: tijolo, papel e fundo de fundos.

Horário de pregão e leilão de fechamento

Na configuração vigente em agosto de 2026, o mercado à vista funciona assim: cancelamento de ofertas das 9h30 às 9h45; pré-abertura das 9h45 às 10h, quando as ofertas são acumuladas e um preço teórico de abertura se forma sem negócio fechado; negociação contínua das 10h às 16h55; e leilão de fechamento, o call, das 16h55 às 17h. Há ainda uma sessão de after-market no fim da tarde, com restrição de oscilação e limite de valor por CPF.

Esses horários mudam duas vezes por ano: a B3 desloca o pregão em uma hora para acompanhar o horário de verão do hemisfério norte e manter o alinhamento com os mercados internacionais. Fora do verão dos Estados Unidos, o encerramento passa para 18h, com o leilão das 17h55 às 18h. A tabela oficial da bolsa é a que vale.

O leilão de fechamento merece atenção. Nos últimos minutos as ordens são acumuladas sem execução imediata e todas se cruzam de uma vez, a um único preço. É esse preço que vira o fechamento do dia, o número usado para marcar carteiras, calcular índices e avaliar fundos. Ordem enviada nesse intervalo não é executada na hora: entra no leilão.

Custos e tributação, em resumo

Entre o retorno bruto e o que sobra existem três camadas: corretagem e custódia da corretora, hoje zeradas em boa parte do mercado mas nunca por obrigação legal; emolumentos e taxas da B3, embutidos na nota de corretagem; e o imposto de renda.

Em renda variável a lógica se inverte em relação à renda fixa: você apura e recolhe, mês a mês, via DARF. A alíquota é de 15% sobre o ganho líquido em operações comuns e 20% em day trade, com isenção para pessoa física quando o total de vendas de ações no mês fica em R$ 20.000,00 ou menos, limite sobre o valor vendido, não sobre o lucro. As regras completas estão em imposto de renda nos investimentos.

Por que renda variável exige prazo

"Risco", em ação, tem significado concreto: o preço pode estar mais baixo exatamente no dia em que você precisa vender, e não existe prazo em que ele volte por obrigação. Não há vencimento, não há emissor obrigado a devolver, não há FGC. Se a empresa quebrar, o acionista é o último da fila.

Daí saem três consequências práticas. A primeira é de sequência: ação não é lugar de dinheiro que pode ser chamado a qualquer momento: esse dinheiro tem endereço próprio, tratado em reserva de emergência, e a ordem dos passos está em por onde começar a investir.

A segunda é de horizonte. Quanto maior o prazo, mais o resultado da empresa pesa e menos o humor do mercado pesa. Prazo não elimina risco (nenhum prazo transforma empresa ruim em bom investimento), mas dá tempo para que o preço reflita o negócio em vez de refletir a semana.

A terceira é de concentração. Uma única empresa pode perder valor e não recuperar, e nenhuma análise elimina esse risco individual. Distribuir entre empresas, setores e classes de ativo reduz a parte do risco que é específica de cada companhia sem exigir retorno esperado menor, que é o argumento de diversificação de carteira, e a razão de o tripé de risco, liquidez e rentabilidade valer aqui como em qualquer outro lugar.

Conteúdo educacional. Este texto explica como funcionam produtos e conceitos do mercado financeiro e não constitui recomendação de investimento, consultoria, análise de valores mobiliários nem oferta de qualquer produto. Decisões de investimento são suas e dependem dos seus objetivos e da sua situação. Regras tributárias e regulatórias mudam; confirme na fonte oficial antes de decidir.